Nós e os corais…os corais e nós…

Postado por Nurit Bensusan

Se alguém disser que quando ouve falar em recifes de corais, pensa logo em tumores, morte celular, câncer, você diria que essa pessoa é doida, mórbida ou… bem informada?

Eu diria muito bem informada! Isso porque um biólogo,  Steven Quistad, da Universidade Estadual de San Diego, na Califórnia, descobriu que os corais e nós compartilhamos a mesma via biomecânica responsável por disparar a auto-destruição das células, um processo essencial para manter a saúde do organismo. O achado de Quistad acaba de ser publicado e vai certamente ajudar a compreender melhor a evolução da vida multicelular, o estado de conservação atual dos corais e ainda vai colaborar no desenvolvimento de novos medicamentos para o combate ao câncer.

Tudo começou quando o pesquisador analisou as proteínas do coral (Acropora digitifera) e comparando com as proteinas humanas, acho uma semelhança peculiar: as duas espécies possuem receptores de proteinas que recebem sinais de outra proteina chamada de fator de necrose tumoral (TNF, sigla derivada do nome em inglês). Quando as proteinas desse fator se ligam aos receptores celulares dele, a célula entra num processo de auto-destruição essencial para evitar que células com defeitos causem danos ao organismo.

O interessante, ou melhor, uma das inúmeras coisas interessantes que emergiram dessa pesquisa, é que os corais tem mais fatores de necrose tumoral do que qualquer outro organismo que habita esse planetinha perdido. Quistad, então, testou se os receptores do TNF do coral reagem às nossas proteínas desse fator e descobriu que sim e mais, que o processo se dá também ao contrário: as proteínas do TNF do coral disparam a auto-destruição das células humanas também!

Isso pode significar muitas coisas:

1) Essa via, na qual o TNF dispara o processo de auto-destruição celular, é muito antiga. Nossos ancestrais comuns, de humanos e corais, datam de pelo menos meio bilhão de anos…

2) Entender esse processo nos corais podem ajudar na sua conservação. Aliás, esses organismos estão precisando mesmo de atenção, pois estão muito ameaçados pelas mudanças do clima e pela crescente poluição dos oceanos.

3) A diversidade de TNF presente nos corais pode levar a uma maior compreensão dos mecanismos tumorais e ao desenvolvimento de novos tratamentos para o câncer.

4) Há muito mais na natureza do que parecemos acreditar que haja. Destruir espécies pode resultar na destruição de possibilidades, mesmo antes que cheguemos a conhecê-las. 

5) Da próxima vez que você estiver brincando daquele jogo de conectar palavras, quando alguém disser “praia” e você emendar dizendo “necrose tumoral”, ninguém poderá reclamar, nem te chamar de mórbido…

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O Brasil tem os únicos recifes de coral do Atlântico Sul com muitas espécies endêmicas, ou seja aquelas que existem somente aqui, em nenhum outro lugar do planeta. Será que vamos perdê-las antes de saber que segredos guardam?

Do jeito que as coisas andam… certamente…

 

As lições de Alice

Postado por Nurit Bensusan

Apesar de não haver dúvidas de que não vivemos no país das maravilhas, talvez a história de Alice possa nos ajudar a entender a nossa relação com nossa megabiodiversidade…

Vejamos:

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Como o coelho, estamos atrasados… Já perdemos cerca de metade do Cerrado e da Caatinga; para a Mata Atlântica, só falta um réquiem, e as taxas de desmatamento da Amazônia voltaram a subir. No que estávamos mais ou menos adiantados, insistimos em voltar a estar atrasados, confirmando que tudo o que é sólido, ou parece ser, desmancha no ar… Assim, algumas garantias que parecíamos ter em relação à política ambiental e aos direitos dos povos indígenas e das comunidades locais estão se liquefazendo rapidamente…

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Como o dodô sugere, corremos em círculos… Insistimos em tratar nossa biodiversidade e nossas florestas como uma maldição da qual queremos nos livrar o mais rapidamente possível. Não avançamos na compreensão do que isso significa, nem conseguimos conceber novos modelos de desenvolvimento. Tentamos fazer o que os outros fizeram e nos espantamos quando obtemos os mesmos desastrosos resultados. Sucessivamente, perdemos oportunidades, fazemos escolhas suicidas e deixamos o que é mais importante de lado. No Brasil, há uma profusão de experiências socioambientais bem sucedidas que infelizmente não ganham escala, nem divulgação para se estabelecerem como modelos alternativos viáveis… enquanto isso, mais do mesmo…

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Como Alice aprende quando vai falar com a Rainha de Copas, para conversar é preciso correr ao mesmo tempo. Não há mais tempo para pararmos para pensar, mas tampouco é possível sair correndo desvairadamente, sem nenhuma reflexão. Para mudarmos, temos que continuar fazendo e pensar mais criticamente sobre o que fazemos… assim, talvez, seja possível corrigir, pelo menos vagamente, o curso… 

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E por fim, como a Rainha Branca, temos que acreditar em seis coisas improváveis antes do café da manhã… sem isso nunca conseguiremos conceber novas alternativas…

Biodiversidade, cidades e o tempo

salvador_dali

Postado por Nurit Bensusan

Faz tempo, tempo mesmo, que esse blog anda abandonado por suas autoras. Isso coincide com o tempo que nosso site, o Biotrix, andou desatualizado e nós andamos procurando a nós mesmas… Agora, estimuladas pelo sucesso que o site faz, mesmo sem nenhuma divulgação, e pela esperança que temos de termos encontrado alguns caminhos, estamos de volta!

Fiz, então, uma tentativa de responder a seguinte pergunta para esse post inicial: será que muita coisa mudou nesses últimos três anos? Desde a Décima Conferência das Partes da Convenção da Biodiversidade, a COP 10, realizada em Nagoya, em 2010?

Minhas respostas:

Sim, porque o tempo passou e as coisas se agravaram… Outras reuniões aconteceram, como a COP 11, realizada em Hyderabad, na India. Ali, a própria Convenção da Biodiversidade reconheceu seu fracasso em cumprir seus objetivos e seu plano de redução da taxa de perda de biodiversidade. Novo plano foi lançado… o que nos conduz a parte negativa da resposta: não, nada mudou… as reuniões acontecem, os planos são feitos e nada parece de fato mudar…

Sim, porque no Brasil o desmonte da política ambiental se acelerou e o que julgávamos assegurado há anos rachou e, em alguns casos, desmoronou… Como disseram Marx e Engels, no Manifesto Comunista, “Tudo o que é sagrado é profanado. Tudo o que é sólido desmancha no ar.” Mas, também, é possível responder que não, nada mudou, pois o embate de interesses continua o mesmo, o descaso com a conservação da biodiversidade e com a manutenção dos processos biológicos cresce e a desprezo pelas consequências de nossos atos se acentua.

Sim, porque a tecnologia avançou muito e com elas novas questões surgiram. O que parecia certo, como a extinção das espécies ser um processo sem volta, passou a gerar dúvidas. E, talvez, algumas das coisas que vemos como problemas podem vir a ser soluções. No entanto, há o lado negativo também, a concentração das novas tecnologias nas mãos de poucas empresas se acentuou e o alijamento da sociedade dos processos de tomada de decisão ligados a ciência e a tecnologia se cristalizou.

Depois de tanto sim e não, acho que há, possivelmente entre outras, uma transformação gritante, sem volta e que está mudando a face do planeta: a urbanização da Terra. Aqui no Brasil, a demografia não deixa mais dúvidas: mais de 70% da população é urbana e esse número cresce cotidianamente. No planeta, é possível que mais da metade das pessoas já vivam em cidades… e um grande número delas, em favelas. Há inclusive aqueles que dizem que o melhor termo, mais realista, não é a urbanização do planeta e sim sua favelização. Para quem não conhece, recomendo muito o livro “Planeta Favela” de Mike Davis, editado no Brasil pela Boitempo, em 2006.

De qualquer forma, a questão da urbanização do planeta atinge diretamente a biodiversidade e a integridade dos processos biológicos. Se por um lado, era difícil mantê-los num ambiente rural, nas cidades parece mais complicado. Mas, por outro lado, talvez com essa concentração humana nas cidades seja possível mostrar a importância desses processos e criar mecanismos para assegurar sua manutenção. A Convenção da Biodiversidade parece acreditar nisso e aborda o tema em seu site Cities and biodiversity outlook.

Por fim, vale dizer – num arroubo de otimismo, incomum, confesso – que há muitas iniciativas mundo afora que tentam mudar nossas relações com os recursos naturais, com o consumo e com a tecnologia. Talvez mudanças reais acabem por acontecer… e a biodiversidade continue por um triz, ao invés de desaparecer…

 

Nagoya, a terra da paranóia?

Nurit Bensusan, publicado no Nosso Planeta (http://oglobo.globo.com/blogs/nossoplaneta/)

De “ainda possível” a “nada realista”. Nesse intervalo, oscilam os ânimos dos que negociam um acordo sobre o acesso aos recursos genéticos em Nagoya, no Japão, na décima conferência das partes signatárias da Convenção da Biodiversidade. Faltam apenas 3 dias para o encerramento da reunião que começou no dia 18 de outubro e vale lembrar que as negociações sobre esse tema se iniciaram há muitos anos…

Por que é tão difícil avançar? Há vários motivos… alguns enumerados abaixo:

As divergências entre os atores: para entendermos tais divergências, temos que entender primeiro quem são os atores envolvidos nesse processo. São, claro, os mais de 190 países que ratificaram a Convenção, mas por trás desses países, há muitos interesses corporativos. Indústrias farmacêuticas, de cosméticos, de sementes que não estão interessadas em regulamentar o tema.

A complexidade do assunto: a Convenção diz que quem acessa e utiliza recursos genéticos deve repartir benefícios. Há, porém, controvérsias que começam na própria definição de “recursos genéticos”, passam pela ideia da repartição de benefícios (seria ela monetária ou poderia se dar na forma de transferência de tecnologia?) e ainda alcançam os conhecimentos associados a esses recursos, como por exemplo conhecimentos de povos indígenas relacionados à determinadas plantas e seu poder de cura de certos males.

Os mecanismos que regem a Convenção: nessa Convenção, as decisões devem ser tomadas em consenso. Claro que isso dificulta muito qualquer avanço. O resultado são decisões fracas, derivadas da necessidade de agradar gregos, troianos, franceses, chineses, canadenses, australianos, argentinos, brasileiros, japoneses, quenianos, líbios, marroquinos, lituanos, ingleses, tailandeses, malaios, tchecos, guatemaltecas, mexicanos, etc…

Não é apenas que é pouco provável que saia um acordo sobre o tema, mas também, se esse acordo fosse um protocolo, como era a intenção inicial, com mecanismos de implementação e sanções, a pergunta é quão forte ou quão importante ele realmente seria dado os motivos acima mencionados…

As únicas notícias otimistas que vieram dessa Conferência dizem respeito ao reconhecimento da áreas protegidas como mecanismo de conservação de biodiversidade. Não é para querer ser a chata do pedaço, mas esse instrumento já existia há mais de 100 anos quando a Convenção da Biodiversidade entrou em vigor e os dados de perda de biodiversidade mostram continuamente que as áreas protegidas sozinhas não dão conta do recado…

 

 

 

 

 

“Medusa” de Paul Freeman

Será que só nos resta arrancar os cabelos?

As últimas notícias dão conta de que o Brasil, apoiado por outros países em desenvolvimento, ameaça não aprovar nada em nenhum outro tema, se não houver um acordo sobre o acesso aos recursos genéticos e a repartição de benefícios, levando a um fracasso total da Conferência.O resultado, talvez, seja um acordo fraco, para salvar as aparências… Melhor ou pior?

 

Nagoya: sai MOP5, entra COP 10… e tudo continua igual…

The more the things change, the more they remain the same

Postado por Beatriz Bulhões e Nurit Bensusan

Após uma semana de reunião em Nagoya, as Partes do Protocolo de Biossegurança adotaram o Protocolo Suplementar sobre Responsabilidade e Compensação, ou Protocolo de Nagoya-Kuala Lumpur. Esse protocolo trata da responsabilidade em caso de danos causados à biodiversidade e à saúde causados pelos movimentos transfronteiriço de transgênicos. Outras 16 decisões também foram adotadas, entre elas sobre a criação do mecanismo de intercâmbio sobre biossegurança (BCH); capacitação; registro de peritos sobre biossegurança; padrões para manuseio, transporte embalagem e identificação de OVMs; monitoramento e relatórios; Plano estratégico e programa de trabalho plurianual; avaliação e gerenciamento de risco; conscientização pública e participação; mecanismo financeiro, recursos e orçamento.

A reunião aconteceu de 11 a 15 de outubro, em Nagoya, no Japão e teve a participação de mais de 1600 pessoas, entre elas representantes das Partes do Protocolo, representantes de outros governos, agências das Nações Unidas, organizações intergovernamental e não-governamental, academia e representante das indústrias.

Mesmo com a dúvida de sua eficácia, pois não prevê garantias efetivas de que medidas suficientes sejam tomadas para reparar os danos à biodiversidade, a adoção do Protocolo suplementar foi um avanço importante não só para biossegurança, mas também para outras áreas de responsabilidade e compensação de danos ao meio ambiente.

Enquanto não se define a questão da obrigatoriedade de um seguro financeiro que cubra os danos à biodiversidade e à saúde causados pelos transgênicos, os países poderão exigir seguros para permitir a importação de  transgênicos.

Na avaliação da ASPTA, que trabalha há anos com o tema: Trocando em miúdos, muito esforço e investimento para um avanço muito pequeno. O seguro sobre carregamentos transgênicos como forma de gerar fundos para a compensação por danos ambientais e à saúde é facultativo e sua adoção ficará a critério de cada país. Mesmo assim, sua operacionalização dependerá ainda da realização de estudos sobre as modalidades de seguro e seus impactos ambientais, econômicos e sociais. Assim como no caso da identificação das cargas contendo transgênicos, a solução para evitar o naufrágio das negociações foi empurrar com a barriga a adoção de qualquer medida mais concreta. Enquanto isso, se reconhece o direito dos países de pedir seguros que cubram a importação de transgênicos. Nem poderia ser diferente, embora essa tenha sido a posição original defendida insistentemente pelo Brasil.” (http://www.aspta.org.br/por-um-brasil-livre-de-transgenicos/boletim/boletim-511-15-de-outubro-de-2010)

Para esse Protocolo valer, a próxima etapa é em âmbito nacional, ou seja, os países precisam aprovar internamente e então ratificarem o acordo. No Brasil, o Congresso Nacional precisará aprovar e o presidente ratificar o protocolo. Teremos um Congresso renovado (?) e um (a) novo (a) presidente, que se for ela terá maioria no Congresso. Nesse caso, a ratificação dependerá em última análise do Executivo.

Isso valerá também para o Protocolo de Acesso a Recursos Genéticos (ABS, Access and Benefit  Sharing), se for adotado na COP 10, que começa hoje, dia 18 de outubro. Mesmo com muitos colchetes ainda (significa que não há consenso) há expectativa de que o texto do Protocolo seja aprovado pelos países na COP 10. Serão duas semanas de intensas e exaustivas negociações. Mas espera-se que no fim desse período tenhamos algo para comemorar.

Papai noel, já me conformei que não existe, mas continuo acreditando em sacis, curupiras, mula-sem-cabeça e na cuca…

A aprovação do Protocolo de ABS e a definição dos recursos financeiros necessários para viabilizar a implementação dos compromissos condicionarão a aprovação do novo plano estratégico e do IPBES (Intergovernmental Platform for Biodiversity and Ecosystem Services).

Outros temas serão tratados durante as duas próximas semanas, são eles: a transferência de tecnologia e cooperação; a Estratégia Global para Conservação de Plantas; Comunicação, educação e conscientização pública (CEPA); Cooperação com outras convenções, organismos internacionais e iniciativas que engajem importantes grupos de interesse, incluindo biodiversidade e empresas, cidades e biodiversidade; cooperação sul-sul; biodiversidade em águas interiores; biodiversidade marinha e costeira; biodiversidade em montanhas; áreas protegidas; uso sustentável da biodiversidade, biodiversidade e mudança do clima; biodiversidade agrícola; biodiversidade de terras secas e sub-úmidas; biodiversidade florestal; biocombustível e biodiversidade; espécies exóticas invasoras; Iniciativa Global de Taxonomia; artigo 8(j); medidas de incentivo além de novos e emergentes temas que podem ser adotados como programa da Convenção.

Muito do que será decidido (se algo for de fato decidido…) em Nagoya impactará políticas públicas, planos, programas por aqui. Vamos esperar que seja para melhor!

O filme já rodou?

Parece que sim, parece que o filme já rodou, a fila já andou e essas convenções multilaterais, como a da biodiversidade, estão fazendo água. No caso da Convenção de Clima, isso até faz sentido, afinal com todo o gelo derretendo por aí, nada mais apropriado do que fazer água…

Começou hoje a COP 10, mas parece que não avisaram aos participantes que o filme já rodou… Todos se animam, alguns esperançosos, outros iludidos, uns de boa-fé, outros com absolutas más intenções. Circulam em torno de negociações e parêntesis sem fim, buscam consensos impossíveis, redações intangíveis, alianças improváveis…

Com a sensação de amargo na boca, muitos de nós, habitués das COPs, mas calejados demais para acreditar, acompanhamos de longe o que se passa no Japão. Acesso a recursos genéticos? Se por acaso um protocolo sair dessa COP será de fato um avanço. Probalidade de isso acontecer? Remota. Um protocolo vinculante, com obrigações, metas e sanções de forma a modificar as ações nesse tema de forma significativa? Probabilidade tendendo a zero rapidamente…

Como é tarde demais para ser pessimista, o que fazer? Está na hora de procurar outros mecanismos internacionais para proteger os processos biológicos e a biodiversidade. Novas ideias são muito bem vindas!



(Em)PPCerrado

Postado por Beatriz Bulhões e comentado por Nurit Bensusan

Este ano, temos presenciado incêndios florestais de enormes proporções em áreas de Cerrado, como por exemplo, no Parque Nacional das Emas (GO), no Parque Nacional da Serra da Canastra (MG) e em Brasília, na Estação Ecológica de Águas Emendadas e no Parque Nacional de Brasília, ambas as unidades são áreas-núcleos da Reserva da Biosfera do Cerrado.

Nesta atmosfera, cheia de fumaça, foi lançado, no último dia 15 de setembro, o PPCerrado, Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento e das Queimadas no Cerrado, que propõe a conciliação de ações de conservação com de desenvolvimento. O Plano começou a ser delineado pelo Ministério do Meio Ambiente e em 2009 foi colocado em consulta pública. Só que a Casa Civil decidiu ampliar o escopo do Plano envolvendo outros ministérios e considerar as metas voluntárias estabelecidas na Lei 12.187∕2009 que instituiu a Política Nacional sobre Mudança do Clima. A meta para o Cerrado é reduzir em 40% as emissões de gases de efeito estufa provenientes do desmatamento no bioma até 2020.

Os objetivos e as ações do Plano são agrupados em 4 eixos temáticos: Fomento às Atividades Produtivas Sustentáveis, Monitoramento e Controle, Áreas Protegidas e Ordenamento Territorial e Educação Ambiental. O investimento total previsto para 2010 e 2011 é da ordem de 340 milhões de reais, sendo a previsão de gasto ainda nesse ano é de R$ 151.723.070,27.

Se o governo tem este dinheiro para investir por que não investiu até agora em ações de prevenção e combate a incêndios florestais? Por que deixar queimar o pouco que resta de Cerrado?  Porque não se importa… porque acha que bacana é dizer por aí que aumenta sua produção agrícola sem derrubar árvores… da Amazônia, pois do Cerrado, simplesmente não vale, não conta… Para quem ainda não viu, instrutiva sobre esse aspecto é a matéria do “The Economist” sobre a agricultura brasileira: http://www.economist.com/node/16886442

Apesar de que os dados do INPE têm mostrado que o ano de 2010 está sendo bem mais seco que 2009, o que aumenta o risco de fogo, as medidas de prevenção e combate a incêndios florestais não têm sido suficientes. O que temos visto é a falta de equipamentos adequados, de recursos humanos capacitados, de investimentos que garantam uma gestão competente e eficiente das unidades de conservação. Se analisarmos os 28.608 focos de queima que aconteceram no Brasil apenas no mês de agosto, vimos que 14.629 focos ocorreram somente no Cerrado, ou seja, 55% do total. Os dados do INPE mostram também que os focos de queima em áreas protegidas aumentaram 275% em relação ao mesmo período do ano anterior.

E sempre vale a pergunta: se não conseguimos evitar incêndios em áreas protegidas localizadas a menos de 30 km do Palácio do Planalto, como em Águas Emendadas e no Parque Nacional de Brasília, como esperar que os focos mais longínquos de incêndios sejam controlados ou evitados?

A apresentação do Plano pelo governo federal despertou reações em mim um tanto contraditórias. No primeiro momento a sensação foi de alívio, enfim algo mais estruturado para o Cerrado, nosso tão negligenciado bioma, mas no momento seguinte venho a dúvida se as metas definidas são suficientes e se o governo tem real capacidade de cumpri-las.

Eu nem fiquei com essas dúvidas… há muito deixei de acreditar em papai noel…

Além do combate às queimadas descontroladas, o Plano definiu diversas ações para atingir a meta de redução de desmatamento nos setores que mais impactam o Cerrado. Na agricultura, por exemplo, planeja-se o desenvolvimento de práticas e sistemas sustentáveis de produção tais como a recuperação de pastagens degradadas, adoção do sistema de integração lavoura-pecuária-floresta, incrementar o sistema de plantio direto e do uso de fixação biológica de nitrogênio e aumentar áreas de florestas plantadas.

Em relação às unidades de conservação, a expectativa é que se invista em estudos sobre a biodiversidade em áreas prioritárias para conservação, se crie mais 18 unidades de conservação de proteção integral e 10 novas reservas extrativistas, que somam mais 2,5 milhões de hectares e um investimento de R$ 2.583.800,00 até 2020.

Apesar de ser nosso segundo maior bioma, ser a savana mais rica em biodiversidade do mundo, ter quase 48% de sua cobertura vegetal perdida, de ser um dos bioma brasileiro mais ameaçados, o Cerrado não é considerado pela nossa Constituição como patrimônio nacional.

A nossa Constituição só considera patrimônio nacional a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, o Pantanal Matogrossense, a Serra do Mar e a zona costeira. Há anos que se tenta corrigir esta falha. Não é falha não… é uma exemplo clássico de ato falho… Desde 1992, tramitam no Congresso Nacional propostas de emendas constitucionais inserindo o Cerrado (e algumas a Caatinga) na lista de biomas considerados patrimônio nacional. Em julho deste ano, foi aprovada no Senado Federal a PEC 51/2003 de autoria do Senador Demóstenes Torres e encaminhada para revisão da Câmara dos Deputados, onde recebeu o número PEC 504/2010. No momento ,está na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJC) da Câmara dos Deputados que aguarda o retorno dos parlamentares para continuar sua tramitação.  Mas aí vem a pergunta que não quer calar. Ser considerado patrimônio nacional muda alguma coisa? Dizem que sim, que além de valorizar o bioma dá respaldo para a normatização de seu uso. Será? Tanto o Pantanal como a Mata Atlântica vêm sofrendo enormes pressões de políticas de desenvolvimento para a região, e olha que ambos são patrimônios nacionais desde 1988. O que faz a diferença mesmo é investimento pesado em educação e conscientização, é a vontade política e a vigilância da sociedade.

Mas quem teria a coragem de mexer com os interesses do agronegócio no Brasil?

Depois das eleições, os parlamentares voltam ao Congresso e aí é momento de a sociedade se mobilizar para que a PEC seja votada ainda este ano. O Executivo deu um primeiro passo, agora é a vez do Legislativo. Depois será a vez a nossa vez de acompanhar e cobrar o cumprimento das metas assumidas no PPCerrado.

Depois, já em dezembro, é só fazer uma listinha de presentes para o bom velhinho…

Colocar no papel é fácil, o difícil é fazer o que está por lá. O que não dá é empperrar!

Se…

Postado por Nurit Bensusan

Claro que não dá para esperar até conhecer tudo – algo que demoraria certamente mais de 1000 anos –  para tomar atitudes em relação à biodiversidade e sua conservação… mas por outro lado, as iniciativas de aumentar o conhecimento sobre a biodiversidade são muito bem vindas!

Aos moldes do Biota-Fapesp, programa de pesquisa em caracterização, conservação e uso da biodiversidade em São Paulo que teve início em 1999, foi criado o Sisbiota-Brasil – Sistema Nacional de Pesquisa em Biodiversidade para incrementar o conhecimento sobre a nossa biodiversidade. Um edital, recém-lançado, com um aporte inicial de 51,7 milhões, dará início ao programa.

Para garantir o sucesso da iniciativa é importante que não apenas a inspiração venha do Biota-Fapesp. Há muitas lições que devem ser aprendidas desse programa e plasmadas de forma indelével no Sisbiota-Brasil. Uma delas é que o sucesso do programa paulista se deve ao fato de ter sido capaz, ao longo dos últimos 10 anos, de financiar projetos de longo prazo e de se manter longe de ingerências políticas.

Como dizem por aí, é tarde demais para ser pessimista, mas, também, há que se aprender com a experiência. Poucos foram os casos, em programas nacionais, onde houve continuidade a longo prazo e preservação de prioridades a despeito dos diferentes gestores. Se isso acontecer dessa vez, talvez, possamos dar um salto em termos de conhecimento da biodiversidade. Se isso acontecer, poderemos revisitar nossas estratégias de conservação e refletir com mais embasamento sobre nossas concepções de natureza. Se isso acontecer, e se tivermos coragem, poderemos transformar essas concepções e ter resultados mais efetivos para a conservação dos processos que geram e mantem a biodiversidade. Se isso acontecer, teremos que revisitar as formas pelas quais tratamos outras formas de conhecimento que se relacionam com a natureza de forma diferente da nossa. Se isso acontecer…

Não sei não,  mas acho que tem “se” demais…

O valor ou o preço da biodiversidade?

Postado por Beatriz Bulhões

Produtos da biodiversidade. Ilustração Sérgio Bastos

Em 2007, os países do G8+5 encomendaram um estudo, nos moldes do Relatório Stern sobre repercussões econômicas das mudanças climáticas, que analisasse os benefícios econômicos da biodiversidade, os custos da perda dessa biodiversidade e dos serviços dos ecossistemas e, pretensiosamente determinasse o valor da biodiversidade. O estudo chamado ”A Economia dos Ecossistemas e da Biodiversidade (TEEB, sigla em inglês) está sendo lançado em diferentes volumes para diferentes setores da sociedade e o relatório final será lançado em outubro de 2010, na 10ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP 10), no Japão.

Pela complexidade das relações entre as espécies, dentro da mesma espécie e em uma única espécie, com sua diversidade de genes, e pela nossa imensa ignorância quanto ao número de espécies existentes, estimado entre 8 a 80 milhões, valorar a biodiversidade pode ser um grande jogo de adivinhação. Se nem sabemos quantas espécies existem, como avaliar a biodiversidade?

Na nossa sociedade de consumo, só é valorizado aquilo que tem preço estabelecido. O que é “de graça” não é valorizado. Pode ser desperdiçado, pode ser destruído, pode ser degradado. Os  valores intangíveis dessa biodiversidade, que não podem ser mensurados mas que representam outros valores, sem ser monetário, para as pessoas, para as comunidades, para a manutenção da vida, não são nem ao menos lembrado.

A biodiversidade, considerando os seus três níveis – genético, espécies e ecossistemas -, pode ter valor como mercadoria, como conveniência, e pode ter também o valor moral. O valor de mercadoria é quando uma espécie pode ser transformada em produto que pode ser comprado ou vendido no mercado. Esse valor pode ser direto como, por exemplo, os jacarés podem ter valor potencial na fabricação de sapatos e bolsas, e podem ser indireto, como no caso de certos medicamentos que são cópias sintéticas de químicos produzidos biologicamente. O valor de conveniência da biodiversidade é aquele que a sua existência melhora nossa vida de alguma maneira não-material. E o valor moral é aquele da própria existência, é o valor da vida, é o valor por si mesmo. Para complicar mais, nos cálculos do valor econômico da biodiversidade tem que ser considerado o valor presente e o futuro, o valor da opção, ou seja da importância de se considerar o quanto esta ou aquela espécie podem valer no futuro.

Questões de natureza ecológica deixam o desafio de dar valor a biodiversidade ainda mais complexo, pois as espécies não podem ser tratadas de forma isolada, elas não existem de forma independente, elas coevoluem em ecossistemas dos quais dependem. Isso significa dizer que cada espécie individual depende de algum conjunto de outras espécies para continuar sua existência. E ao querer estabelecer valor para uma espécie tem que estabelecer também para o conjunto de espécies que permitem a primeira a existir. Isso me faz lembrar a pergunta que a Nurit sempre faz. Se você tivesse que escolher algumas espécies para levar para a Lua, quais você levaria?

Há um grande risco de ao se debater a economia da biodiversidade valorizar sobremaneira as regras de mercado, a monetarização da biodiversidade, da vida. O valor que a biodiversidade tem na cultura de muitas sociedades, povos e comunidades não tem preço e não se negocia!

No dia 9 de setembro, em Curitiba, o TEEB direcionado às autoridades locais será lançado pelo economista indiano Pavan Sukhdev.  O lançamento deste estudo está sendo visto com muitos bons olhos por uns, mas com muita desconfiança por outros.  Há que se ter equilíbrio…

Se quiser conhecer mais do estudo acesse a página http://www.teebweb.org

Em busca dos sapos perdidos…

Postado por Nurit Bensusan

As apostas sobre quanta espécies há na natureza oscilam entre 8 e 80 milhões. Isso dá uma boa medida do nosso desconhecimento. Inclusive porque muitas espécies estão em locais de difícil acesso ou em tamanhos de difícil acesso. Quando pensamos nessa segunda possibilidade, em geral pensamos em seres como bactérias ou pelo menos invertebrados. Agora, eis que foi descoberta uma rã, que mede 12 milímetros,  na beira de uma estrada que leva topo da montanha de Gunung Serapi, no Parque Nacional Kubah, em Bornéu . O mais incrível é que os pesquisadores acharam essas rãs pelo barulho que elas fazem ao pôr-do-sol.

Essa descoberta faz parte de uma iniciativa bem interessante chamada “The search of lost frogs”, algo como a busca dos anfíbios perdidos. A pesquisa inclui 18 países na Ásia, na África e na América Latina e é conduzida pela ONG Conservation International e pelo grupo de especialistas em  anfíbios da União Internacional para a Conservação da Natureza. A ideia é redescobrir 100 espécies de anfíbios perdidos. Para conhecer mais, acesse: www.conservation.org/lostfrogs

Os populações de anfíbios estão sofrendo um forte declínio e mais de 30% já estão ameaçadas de extinção. Muitos dos “anfíbios perdidos” dessa iniciativa não são vistos há muitas décadas e não se sabe se essas espécies ainda existem ou não. Ou seja, a crise dos anfíbios pode ser ainda mais grave do que imaginamos.

Ainda mais grave é se imaginarmos que os anfíbios ajudam no controle de insetos que disseminam doenças e que são pragas agrícolas. Além disso, suas peles possuem substâncias químicas – muitas ainda por ser estudadas – com enorme potencial farmacológico.

Como os anfíbios são muito sensíveis às mudanças ambientais, esse declínio de suas populações aponta para as radicais transformações que o meio ambiente vem sofrendo nessas últimas décadas. Não que não soubéssemos, mas os dados quando revelados, sempre nos deixam em estado de choque…

Por um triz: mapa dos dez anfíbios mais procurados nessa iniciativa